Escândalo BES. Como explicar a queda de um império. - Por #Joaquim Marques | Comunilog Consulting

Escândalo BES. Como explicar a queda de um império. - Por #Joaquim Marques

Hoje não vamos abordar a pandemia. Até que enfim. Mas vamos falar de uma outra tragédia, que não menor. O colapso BES. Sendo esta uma tragédia evitável, devemos todos tirar ilações para que não se repita!
Finalmente!
O ministério publico tornou publica a acusação a Ricardo Salgado. É um processo com 4177 páginas, e acusação essa que levou seis anos a ser constituída. É acusado de 65 crimes, e levará mais de 25 pessoas a julgamento. O que está em causa?
O “desaparecimento” de 11,8 mil milhões de euros(!).
Como é isto possível ?
Para entendermos a maior tragedia financeira e socio económica da democracia portuguesa, basta recuarmos 6 anos.
Muitos ainda hoje se questionam de como foi possível fazer desmoronar um gigante como o BES. Todos, incluindo-me a mim próprio, julgávamos não ser possível. Desde logo porque premeditámos ser “to big to fail”.
Julgo, então, ser importante perceber como se criou e alimentou este monstro. E a primeira pergunta que se impõe é: como foram manipulados os números que permitiu a tragédia de um País ?! Ou então como foi possível criar uma ilusão maquiavélica de solidez nas empresas do grupo BES?
Pois bem, isso é possível “martelando” os números/contabilidade. O esquema era alavancar em divida os ativos que nada valiam. Só parte dessa divida era contabilizada. Funcionava como um esquema piramidal. Desde que a pirâmide crescesse a fraude era financiada. Esse financiamento era fácil porque atrativo, uma vez que o juro/lucro pago era o melhor do mercado (papel comercial, obrigações BES, ESFG,..). O dinheiro dos novos credores que subscreviam divida, servia para pagar o reembolso e os juros da divida que cessava. A nova divida pagava os resgates com juros da divida que cessava.
E assim sucessivamente.
Sucede que a divida total crescia. Logo esta era sustentada por ativos tóxicos. Não existia qualquer receita resultante de qualquer negócio real. Foram usadas as poupanças dos clientes para todos os desvarios, despesas e desmandos.
Os esquemas piramidais funcionam enquanto existe mais gente a entrar com a ilusão de lucros fáceis. Esse dinheiro que deveria assentar em poupanças ou negócios reais, apenas servia para alavancar o mostro e pagar lucros fabulosos a quem já estava em jogo. Quando rebenta a bolha, e os supostos investidores tentam fazer o resgate massivo dos investimentos, o dinheiro não existe, porque a pirâmide parou de crescer. Logo como ninguém mais entra na pirâmide, leva a um incumprimento cruel dos compromissos dos últimos investidores no ativo. A pirâmide colapsa e as famílias e instituições perdem todo os dinheiro. Foi isto que aconteceu, que provocou os milhares de lesados do BES.
Faz lembrar o escândalo de Bernie Madoff nos Estados Unidos, que gerou um esquema de Ponzi (piramidal) de 60 mil milões de Euros (a maior fraude financeira da historia). Pediu desculpa, reconheceu que enganou todos incluindo a sua mulher e filhos. Um dos filhos suicidou-se. Madoff acabou, voluntariamente, por se entregar á justiça. O processo foi rápido, foi preso em Dezembro 2008, poucas semanas depois de ter rebentado o escândalo.
Recordo que o grupo BES rejeitou a intervenção da Troika. A intenção era mostrar que era uma instituição solida sem necessidade de intervenção externa, em contraponto com outros bancos como a CGD. Transmitir a ideia que “nós estamos bem”, “estamos muito melhor que os outros”, “logo se fortes nos ratios de capital, para quê uma exposição ?!”
Pois bem , percebeu-se depois que o propósito era uma falácia. A intenção era esconder o lixo financeiro que sustentava toda esta mega fraude. Mas aqui reforço ainda mais a questão fulcral: o que fez o regulador? Qual o resultado das dezenas de auditorias? Qual o valor dos pareceres de tantas auditorias ou consultadorias? Passados 5 anos, e não existem culpados nesta latitude?
Sabe-se agora que Ricardo Salgado apoiou a campanha eleitoral de Cavaco. Não vou tanto por aqui, pois o BES tinha intervenção e influencia em tudo o que era relevante. Tudo o que era poder. Tudo o que mexia. De aí o intitular de Ricardo Salgado como o “dono disto tudo” .
Este “senhor” criou uma máquina de poder que influenciou o universo da política e dos políticos, mas também o mundo das finanças, da comunicação social, e por consequente toda a sociedade portuguesa. E de aqui a utilidade da existência de um “saco azul”. Saco esse que financiava alcavalas, pagava favores e cumplicidades, corrompia-se pessoas e vontades. Um exército de pessoas manipuláveis e de interesses ilícitos. Abominável! Mas executado pelas mesmas pessoas que não se importavam de se vergar.
Existiam até hoje provas inacessíveis, pelo que agora os instrumentos de reabertura de instrução do caso as mesmas vão ficar disponíveis para todas as defesas. Esta é a história inqualificável de Ricardo Salgado. São 65 crimes !! Só no processo BES. Já para não falar em outros processos. Como quatro contraordenações do Banco de Portugal e da CMVL. Ou como acusado no processo Marquês. Ou, ainda, já como arguido no processo EDP(acusado de corromper Manuel Pinho), ou ainda mais como arguido no processo Monte Branco(acusado de fraude fiscal e lavagem de dinheiro).
E o que diz o próprio Ricardo Salgado? cito na primeira pessoa: “vou passar o resto dos meus dias a defender-me”. De lapidar!
O mínimo que o País espera é justiça. Ou então será o descrédito total da mesma.
O grupo funcionava como uma associação criminosa. Com manipulação de contas. Mascaravam-se as contas das empresas em falência, com emissão de mais divida, como expliquei. A questão é que a compra de divida não era só institucional, era em grande parte pela via das poupanças das famílias, principalmente da classe media. Por isso quando este processo caiu como um baralho de cartas, gerou de imediato a maior catástrofe socio económica da sociedade portuguesa.
Quase todas as famílias tinham direta ou indiretamente títulos de divida do grupo BES. Tinham mas não sabiam. Pois pensavam que eram simples depósitos. E este foi um dos maiores problemas. A maior parte das famílias julgava ter depósitos a prazo. Logo segurança plena das poupanças. Mas detinha involuntariamente obrigações ou outros títulos de divida. Logo de risco. Aliciadas com um juro mais atrativo, esta falácia levou á ruína das poupanças de uma vida dos portugueses.
Esta é outra lição. E para todos. As pessoas não têm que ter necessariamente background em economia ou em finanças. Mas devem fazer autocritica, ou melhor, refletir que quando a esmola é grande…
Se houve crime, existiu irresponsabilidade de quem supervisionava! O que gerou o pleno descredito das instituições. Este é o falhanço total das elites do País. E não vou, aqui, esquecê-los neste texto!
Onde andou o Banco de Portugal e o seu governador? O que andaram a fazer cerca de 200 economistas e técnicos nas auditorias do banco de Portugal? Então esta gente paga pelo erário publico não vai a contas?!
O que ainda hoje me surpreende, passados 6 anos, é a preocupação de muitas figuras públicas em absolver Carlos Costa, com argumentos nada convincentes. Primeiro dizendo que o Banco de Portugal tutelava apenas os bancos. Errado. O banco de Portugal abrange todos os grupos financeiros. A Espírito Santo Financial Group (ESFG) era um grupo financeiro cotado, e detinha 25% do capital do BES. E o BES vendeu papel comercial das holdings do Grupo. Então não viram?! As auditorias efetuadas ao BES não mostraram qualquer problema ou irregularidade? Como? Então ter auditores ou analistas incompetentes, a culpa é de quem? Então se a supervisão do Banco de Portugal foi competente, porque razão Vítor Bento solicitou, na altura, uma nova auditoria ao banco ?!....
Julgo que todos ainda se lembram da cereja no topo do bolo: a PT. Que aplicou em cash 800 milhões de Euros no GES, que representava 50% do valor de mercado da PT!! Ou melhor, o iluminado Henrique Granadeiro emprestou ao amigo Ricardo metade do património duma grande empresa, mesmo que com risco iminente. Como pode isto acontecer? Ou, mais grave, como é tolerável estes “senhores” terem imunidade perante a justiça?!
É curioso como se institui a imagem de certos “vermes”. A formula é: sempre bem com o poder político (seja ele qual for !), moralidade para os outros, em milhares de entrevistas e muitas na imprensa cor de rosa. Escândalos atrás de escândalos e o povo a venerar os senhores! Não chegou, na altura, o escândalo Portucale, ou a polémica dos sobreiros protegidos?! Não chegou a fraude “Remédio Santo” e do “Receitas a Soldo” relacionados com fraudes no Sistema Nacional de Saúde (SNS)?! Não chegou o processo “Monte Branco” de escandalosa fuga ao fisco?! Ou ainda as prendas de 14 milhões que recebeu?! Ou será que a referida veneração lhe permite “esquecer-se” de submeter o IRS e penalizar o estado em mais 8 milhões?! Depois a culpa era do Contabilista! Coitado.
O problema, meus amigos, não são os engraçados mas os que caem em Graça! E neste país isso é substancial. Daqui, passo para outro desastre nacional que, os que me conhecem, facilmente identificam. Tem a ver com a suposta massa crítica do país. Que não existe! Mas Maledicência, muita! Pergunto: onde andou o jornalismo de investigação económica neste escândalo BES? Onde andaram os “gurus”: JGF,CO,JMF,JMT?.. Onde andaram estes “justiceiros” do povo, repito? Todos os dias nos entram em casa, sem pedir licença, com futilidades. Com generalidades de Economia, cheios de moralidade, mas sem qualquer rigor ou substancia. Cheios de si mesmos, num vazio de argumentos. Cheios de sorrisos na ansiedade da desgraça alheia. Uma nulidade na fundamentação económica, mas com uma linguagem populista de superioridade moral, que naturalmente agrada aos não esclarecidos. Pois eu leio desta forma: estes senhores esconderam-se no caso BES.
Existem duas razões possíveis e coincidentes: por incompetência e por cobardia. O BES financiava diretamente ou indiretamente (via publicidade) os grupos de comunicação social. É sabido que o “verme” de que vos falava acima, chegou a ameaçar retirar publicidade das referidas instituições que investigassem ou promovessem notícias negativas do Grupo BES. É verdade que este “senhor” era na altura venerado por parte da imprensa medíocre supostamente especializada em Economia. Cheguei a ouvir esta “maravilha” dos tais “gurus” : «enquanto o doutor Ricardo estiver no BES podemos estar descansados, pela sua capacidade de Gestão, e porque este banco é e será sempre 100% privado». Eu só tenho uma conclusão: isto é de um provincianismo bacoco assustador, e assente num pedantismo deplorável!
É uma história triste! É o maior escândalo da democracia Portuguesa. Será irrepetível se foram tiradas as ilações. Toda a sociedade foi brutamente afetada por este crime. Levará muitos anos para muitas famílias se poderem levantar. O que procurei explicar é que se todos foram penalizados, todos também foram, direta ou indiretamente, cúmplices. Se todos perderam, todos tem legitimidade para atuar. A vigilância é, agora, de todos.
Existem primeiro os criminosos, e os que não se importaram com tamanha promiscuidade. Demos esta oportunidade á justiça. Em segundo o regulador, por incompetência ou conivência. Em terceiro a inação do poder político dos diferentes governos. Em quarto as elites do País, ou toda a suposta massa critica, que se alimenta de ignobilidades e maledicência, e não em prol dos interesses do País. Em quinto lugar, falhamos nós cidadãos. Todos nos disseram que estava tudo bem. Lembram-se do aumento de capital um mês antes de o banco cair? Lembram-se do que, sem pudor, foi dito pelas elites?! Para não nos preocuparmos! Nós cidadãos acreditamos, e por isso falhamos também no naufrágio do regime. A ilação que tiramos é que não temos garantias que os primeiros quatro pontos não se repitam, mas temos a responsabilidade civil, legitima em democracia, de correr com os incompetentes e corruptos. Os corruptos será sempre com a justiça. Mas os incompetentes e as pseudoelites é com todos nós. E o que aconteceu passados 6 anos? Nada! Continuam no espaço publico. E de quem é a responsabilidade? Nossa! Pois é, as audiências em prol do telelixo são coincidentes com os que “permitiram” o escândalo BES. ..
Foi o maior escândalo de sempre no País, o maior em toda a união europeia no período da crise financeira. Profiram aqui a palavra VERGONHA. Vezes sem conta. Com firmeza e não a vulgarizem na voragem de outras culturas inúteis.
Deixámos que um cidadão “sozinho” , criasse um poder invisível e maquiavélico! Deixámos que fosse subordinada uma democracia aos seus caprichos e fetiches. Deixámos que um corrupto promovesse outros corruptos. Deixámos que a lealdade entre corruptos destruísse poupanças e a vida de vidas inteiras.
Deixámos, mas não podemos voltar a deixar. O país não aguentaria. O cidadão comum menos ainda. Fica o meu contributo nas sugestões deste texto.

Joaquim Marques