O jornalismo acrítico - Por #Joaquim Marques | Comunilog Consulting

O jornalismo acrítico - Por #Joaquim Marques

Existirá sempre uma grande diferença entre jornalismo de referência e o jornalismo sensacionalista. Existe um tremendo fosso entre o jornalismo de investigação e o jornalismo de sarjeta. E depois existem os jornalistas que se auto intitulam de referência, vendem moralidade, mas onde as captabilidades não vão além de um qualquer jornal tabloide.
Tenho para mim, que a comunicação social tem um primeiro papel de informar. Mas terá ainda e sempre um papel didático e dinamizador em prol do maior ativo de uma sociedade ou de um País: a sua massa critica.
Por isso admiro o trabalho dos jornalistas que rumam contra a maré. Os que se preocupam em divulgar a notícia sem rodeios, com independência, e sem artimanhas. Os que resistem á tentação das fake news.
Admiro os não formatados. Os não alinhados com o vozeirão da pura mal discência.
Mas ainda e principalmente, admiro aqueles que não metem tudo no mesmo saco. Os que conseguem diferenciar. Os que conseguem divulgar uma notícia positiva pela positiva. Dar valor a quem o tem. Reconhecer a cultura do mérito. Promover os bons exemplos. Fazer desses exemplos as manchetes dos jornais.
Tenho para mim uma máxima ou chavão intocável: a maior forma de fazer injustiça é tratar por igual o que é desigual. A forma de promover a justiça é tratar por desigual o que é desigual. A não diferenciação é desmotivante para os que têm mérito e é uma excelente notícia para os medíocres. É cultural, muitas vezes quando tudo fica bem é quando tudo é igual. Nada mais errado. Este conceito de igualdade asfixia o talento, e puxa uma sociedade para a inação, para o conformismo. Pergunto: não será este o primeiro fator de subdesenvolvimento de uma País ? O maior deficit de uma sociedade?
Vem isto a propósito dos ataques miseráveis que a ministra Ana Mendes Godinho foi alvo! A suposta polemica advém duma recente entrevista ao semanário Expresso na qual a ministra dizia não ter lido o relatório da Ordem dos Médicos sobre o surto no lar de Reguengos de Monsaraz, mas que tinha pedido à sua equipa técnica para fazer uma análise minuciosa.
Vamos lá ver, mas qual é o problema aqui? não leu o relatório, so what?
Não têm que ser os especialistas a analisar e propor soluções? E depois sim, com base em fundamentos tomar uma decisão política?
O que a Ministra disse foi algo absolutamente banal e factual como decisora política. Quem tem de ler os relatórios não é a ministra, mas sim os respetivos gabinetes, que têm especialistas pagos pelo erário publico para os analisar e propor soluções.
Mas não, o mundo sedento de sangue caiu-lhe em cima.
E neste caso, não foi só a comunicação social. O Primeiro Ministro reagiu tarde, logo mal, após uns dias de fogo cruzado. E não devia. Depois apareceu o Presidente da República a diminuir a ministra ao proferir que ele lê todos os relatórios. Se um PR serve para ler todos os relatórios não poderá exercer a função de presidente da república. Porque não é possível. Ou então deixa de fazer e atuar em áreas mais relevantes. E depois ainda apareceu Rui Rio. Este que é criticado por pouco criticar (o que não quer dizer que o deprecie) veio também “bater” na ministra.
Fez me lembrar a crise de Centeno.
Este incidente com Ana Mendes Godinho tem semelhanças com os incidentes para com Centeno. Como aqui expliquei neste fórum, os três (PM,PR e Rio) não estiveram nada bem no dossier Centeno , e agora com Ana Mendes Godinho repetiram.
Obviamente poderemos discutir a questão dos lares na crise na pandemia. A pandemia continua a brindar-nos com várias ondas e dinâmicas. E na economia global já todos entenderam que é melhor ninguém rir em antecedência. Ou seja, pensar que a crise é na casa do vizinho, logo vamos á pressa fechar fronteiras pode fazer com que se vire o feitiço contra o feiticeiro. E com pressuposto errados de aritmética -isolar os que mais cumprem por ousarem fazer mais testes. Não é esta, afinal, a melhor ação e escrutínio das cadeias de transmissão?
Quero com isto dizer, que após várias dinâmicas, a pandemia tem-nos comparativamente corrido bem. Não quer dizer que não existam falhas. Existem, e na maior parte no focos e planeamento que foi dado aos lares. De qualquer forma houve medidas, apesar de tardias, como o acréscimo de 6000 funcionários. O trabalho da Ministra é amplamente reconhecido. Implementou um programe de layoff com eficácia e que colocou o nosso país num patamar elevado de referência no ataque á crise, principalmente no apoio ao tecido industrial.
Voltando aos jornalistas!
O seu papel não é recorrem a subterfúgios ou terem medo de derrubar os que se julgam intocáveis. O seu maior objetivo é informar. E informar é colocar o dedo na ferida e deixar a ferida em carne viva. É não terem receio de criar insónias aos poderosos, desde que com fatos. E se os fatos existem, essas sim são as melhores manchetes ou capas de jornal : porque reais, logo inatacáveis .
Depois existem as redes sociais. Aqui mais de 90% das notícias são mentiras. E sempre que aparece algum interveniente destacado com mérito, aparece logo uma inundação de ataques. Impressiona o nível baixo de retorica utilizado. É utilizada uma linguagem deplorável e de justiceiros do povo. De ataques sem fundamentos, mas com o prazer da desgraça alheira, que é muito típico dos Portugueses – já para não falar noutro patamar muito representativo : a inveja.
Nada me dá mais prazer que ler um texto com qualidade. Daqueles que nos prendem desde o primeiro minuto. E pouco interesse se concordo ou não com os fundamentos. Os cronistas que mais sigo e leio não são aqueles com que mais concordo. Afinal são os argumentos que legitimam os fundamentos. E quando é assim estamos a aprender. Estamos a moldar a nossa opinião e a perceção que temos de tudo o gira no planeta.
E quem melhor que os jornalistas (a sério) para nos ajudarem a descodificar tudo o que acontece em tão pouco tempo? Quem mais credível que estes profissionais? Aqueles que nos informam e que nos influenciam pela sua credibilidade.
O mundo tende a ser virtualmente digital e com tão fácil acesso á informação , onde baste um clique e temos o mundo aos nossos pés. Onde inclusive podemos participar e opinar para o debate global.
Por a informação estar disponível nesta rede global, faz também com que cada cidadão possa ser um órgão de comunicação social. O que escreve está disponível de imediato para todo o planeta.
É positiva esta globalidade, mas existe um grande problema. É que escasseiam os que comunicam com dignidade e respeito.
É neste contexto difícil que tiro o chapéu aos jornalistas que primam pela constância e resiliência face às redes socias. Faz-me muita confusão como muitos se fiam mais no Facebook que num jornal de referência. A maior parte não quer saber da verdade ou da utilidade dos argumentos, mas sim os pseudo factos para legitimar o seu pensamento. Não interessa melhorar ou aprender mais, interessa o ego. E quando aparecem os lúcidos em prol da cultura do mérito , estes são trucidados com insultos gratuitos.
Aprecio o jornalismo escrito e radiofónico. A radio tem a magia duma comunicação espontânea, pessoal, emotiva, expressiva - que não se verga a um qualquer premeditado copy past do quer que seja.
São este os jornalistas que que resistem e que puxam pelo país. Estes não ambicionam ser estrelas de televisão ou ter acesso aos valores exorbitantes pagos por tão parco contributo para a sociedade.

O que fazemos para nós mesmos morre connosco . O que fazemos pelos outros e pelo mundo, permanece e é imortal – Abert Pike

Joaquim Marques