Racismo e/ou Economia - Por #Joaquim Marques | Comunilog Consulting

Racismo e/ou Economia - Por #Joaquim Marques

Como explicar num País, normalmente exposto à violência, um ato único tenha motivado uma onda de motins e protestos em tantas cidades assombradas pelo passado?
Como é possível existirem linchamentos motivados apenas pela cor da pele? Porquê? que motivações é a cor da pele dos outros?
Como é possível um movimento iniciado nos Estados Unidos ser alastrado à escala planetária? A Países sem qualquer rasto de racismo!
Será apenas um problema de algumas maças podres como o agente que matou George Floyd?
Ora, não creio que seja assim.
Julgo ser, o racismo, uma situação bastante mais complexa. E será sempre um equívoco encararmo-lo de uma forma redutora.
O racismo é um caldeirão cultural que se sustenta nas desigualdades e provem da clivagem socio económica.

Vamos primeiro à parte cultural.

Entre três seculos a América não conseguiu resolver os problemas que a herança da escravatura deixou.
O racismo representa um dos maiores paradoxos da sociedade norte-americana. E persiste desde a sua criação. Desde a declaração de independência em 1776, escrita por Thomas Jefferson. Foi uma declaração de apologia à igualdade entre os homens. Mas desde logo uma trágica e significativa ironia, pelo facto de o próprio Thomas Jefferson deter uma quinta com escravos!
Existem, portanto, muitas contradições. Estas contradições nos Estados Unidos levam a uma dicotomia. Observemos que muito recentemente os Estados Unidos tiveram um Presidente negro. Mas que o rescaldo foi a consequente eleição de um Presidente supremacista branco.

Abusos policiais e utilização excessiva de força, é o que os ativistas negros proferem à décadas! Agora mais fácil de documentar com as redes sociais, com toda a gente com telemóvel que pode tirar fotografias, fazer vídeos e passam a ser provas. Os fatos documentados passaram a ser acessíveis e a ser divulgados.

O que aconteceu em Mineápolis, no Minnesota, foi a gota de água que transbordou o copo. Um Homem negro foi asfixiado durante 8 minutos e 46 segundos. Este foi o pretexto. Mas os fatos que induzem nesta realidade são elucidativos. Os factos apontam que a comunidade negra representa 20% da população da cidade, mas foi o alvo de 60% do uso da força por parte da polícia, nos últimos anos.

A brutalidade é transversal em toda a sociedade , quer nos estados liderados pelo partido Republicano quer nos estados liderados pelo partido Democrata.
Por exemplo o movimento “Black Lives Matter” surgiu na Administração Obama, no pós assassinado de Michael Brown pela policia de Ferguson, no Missouri.
Por isso a violência policial contra negros está muito longe de ser apenas culpa de Donald Trump. Verdade que a sua conduta não contribui para diminuir o problema. Não ajuda não rejeitar na sua base de apoio uma facção de extrema direita. Não ajuda o seu discurso de supremacista branca que legitimou, banalizou e normalizou a violência contra negros, hispânicos e imigrantes.
Trump anunciou positivamente em Maio, no pós lockdown, a descida de 1,4% na taxa de desemprego, mas os factos mostram que foi inalterável na população negra. E por isso não fez nenhum reparo.

Qual o verdadeiro rastilho destas manifestações planetárias?

Julgo existirem dois fatores relevantes que explicam estas manifestações. O primeiro fator é que o mediatismo empolgado das mesmas - são a arma e a linguagem dos sem voz! E desde logo esteve presente o movimento dos direitos em 1968 após a morte de Martin Luther King . Foi a luta contra o racismo, através de gigantescos protestos que culminou com o movimento dos direitos. Julgo que este sentimento esteve presente nas atuais manifestações.
O segundo fator advém com a crise da pandemia, que originou uma degradação significativa das condições socio económicas, principalmente na população negra. Acentuou a fratura social!
Mas existe, todavia, uma terceira via. Que é a dos anarquistas , dos anti sistema, ou dos supostos anti – racistas, que procuram a violência com um qualquer pretexto. Daí a “fashion” absolutamente lamentável na vandalização de estatuas! São movimentos anacrónicos e sem qualquer noção e respeito pelos valores do passado.
Grupos anti-racistas vandalizaram estatuas de Lincoln. Até a estatua de Churchill não foi poupada. A quem mais devemos a liberdade como hoje a conhecemos? Curioso que a vandalização foi feita por movimentos antifascistas, quando foi Churchill quem mais combateu o fascismo! Winston Churchill foi um dos pilares na derrota do Nazismo. De aqui se constata uma ignorância confrangedora.

Por cá, até a estatua do Padre Antonio Vieira foi vítima da fúria. Um defensor dos Índios no Brasil. Ridículo!
Chegou-se ao absurdo de suprimir series televisivas e filmes. Até jornalistas foram despedidos, apelidados de racistas, por divulgarem informações verdadeiras.
Exagerou-se, perdeu-se a razão.

Paradoxalmente é na Europa e nos Estados Unidos que o racismo mais é combatido. Mas os sítios onde se registaram mais manifestações!
E por aqui se entende a falta de lucidez de muitos. Abraça-se uma causa para defender outras. Ou seja, perde-se o foco da causa primordial. E de aqui emergem aqueles que são do contra incondicionalmente. Que se autotitulam de vítimas. E vítimas cheias de direitos e zero obrigações.

Aos que se fazem de vitimas é comum ouvirmos : “lutar contra tudo e todos” . Esta é uma fórmula que funciona e repetida alinha as próprias tropas. Identifica-se um inimigo (tantas vezes imaginário ) para se praticar a demagogia . Esse inimigo muitas vezes não sabe(!), e quantas vezes nem sequer existe! E se a tese do inimigo não alinha as massas recorre-se a famoso sistema. Esse malandro sistema que quer fazer mal a uns e bem a outros! Supostamente esse inimigo ou sistema envolve uma multidão de pessoas ou instituições maléficas. Os outros querem o mal. Logo os próprios (os bons, obviamente) têm como dever cimentar a unidade, para praticar o bem. O que observo é que estes movimentos quanto muito cimentam a cultura da inveja. Pobre dos que alinham!

Existe, no entanto, um facto muito relevante nas manifestações. Em 1968 os manifestantes eram negros na sua plenitude. Hoje não são apenas negros. São inter-raciais! Visualiza-se uma enorme participação de brancos e outras raças. O que traduz uma mensagem muito significativa. A questão não é só racial. A questão é fundamentalmente socio- económica. Ou dito de outra forma, existe uma consciência coletiva de problemas que vão muito além do racismo.

Assenta o racismo na clivagem socioeconómica?

Note-se que esta violência, não se cinge apenas a violência policial. Esta violência é principalmente uma violência institucional, porque socioeconómica. E aqui surge o rastilho. A crise socioeconómica agudizou-se pela pandemia. Por exemplo uma das cidades mais afetadas pelo covi-19 foi Nova Iorque. Os dados são representativos. Nova Iorque tem 46% de população negra, mas 76% das vítimas a lamentar do coronavírus eram afro-americanos. A via direta para explicar esta disparidade tem a haver com o acesso aos cuidados de saúde. É um problema histórico nos Estados Unidos.
Os acesso ou ausência de um Sistema Nacional de Saúde representa na minha opinião a maior fragilidade da suposta mais solida democracia do planeta. E registe-se que é nos Estados Unidos que se encontram a melhores clínicas do planeta, nos tratamentos e saúde e Investigação.
Existe, portanto, um racismo institucional e socioeconómico que domina a sociedade norte-americana há centenas de anos. Movimento esse que se globalizou nesta crise.
O protesto contra as disparidades socio- económicas são na minha opinião o fator principal que legitima estas manifestações. O pretexto é o racismo, mas no subconsciente está a degradação do poder de compra e a degradação social, acentuada com a crise do covid-19. Este fosso social explica a globalidade das mesmas. Nem todos têm problemas de racismo, mas todos comungam no protesto contra as desigualdades sociais. Afinal quase “tudo” é economia. Ou tudo vai ter à economia!

Não existiria caldeirão cultural nem desigualdades acentuadas se a clivagem socio económica não só não aumentasse, mas diminuísse.

Se o Covid-19 foi responsável pelo maior choque social e económico que há memoria, logo nada fazendo, a saída da crise pós-pandemia será assimétrica. Por isso só existe uma saída: não se erre no alvo (como demolir estatuas), mas sim concentrem-se todas as energias na solidariedade e cooperação internacional.

Joaquim Marques